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10 fevereiro 2017

Veículo automóvel

Eu estava na rua com meu avô quando encostaram dois veículos perto de nós. Pararam, desligaram os motores e desceram ao nível da rua. Meu avô enrugou os olhos como costumava fazer para enxergar mais longe e identificou dois amigos que pararam para cumprimentá-lo. Parecidos com ele, os dois senhores bem idosos conversaram um pouco com meu avô e foram embora nos veículos, que transportavam mais duas pessoas e rapidamente sumiram no horizonte. Eram poucos os veículos transitando. Eles só eram usados quando havia necessidade de locomoção de longa distância ou com urgência. Eram de propriedade do governo local e sempre que algum cidadão precisasse podia requisitar um, desde que justificasse a necessidade.
Depois de ver os amigos se afastarem e me explicar que eles estavam indo visitar uns parentes em outras cidades, meu avô ficou pensativo, olhando para a direção dos veículos e começou a se lembrar do que sua mãe contava sobre os veículos de sua época e da época da mãe dela. Pra começar eram muitos, porque praticamente cada cidadão era proprietário de um. E eles andavam no chão, com quatro rodas de borracha e com combustível feito de petróleo, que poluía o ar de todas as cidades. Às vezes, conforme narrava a avó do meu avô, eram tantos os carros em uma mesma via que eles demoravam pra sair do lugar e ficavam ali, um atrás do outro, por muito tempo, até horas. As pessoas usavam os veículos para quase tudo e por isso eles se amontoavam nos mesmos lugares e liberavam poluentes em grande quantidade pelos caminhos que passavam. Pela dificuldade de locomoção, as pessoas perdiam muito tempo no trânsito, ficavam irritadas, nervosas e costumavam dirigir em velocidade muito alta para o tipo de veículo que possuíam. Isso geralmente causava acidentes e até mortes, pois os automóveis, como eram chamados os veículos, eram feitos de material frágil que amassava sempre que um deles se chocava com outro. Meu avô disse que uma tia dele morreu assim, em um acidente dentro de um veículo.
Não consigo imaginar uma via cheia de veículos amontoados e frágeis, sem espaço para a locomoção e ainda ficando presos ao solo. Os veículos hoje são feitos para servir; são eletrônicos como qualquer outro aparelho, que ligados têm uma função específica e só isso. São autômatos e geralmente só atendem a comandos pré-fixados, saindo de um lugar e parando no outro para o qual foram programados. Alguns veículos, como os que conduziam os amigos do meu avô, permitem alteração dos comandos, por isso eles conseguiram parar para cumprimentar o amigo. Existe um serviço central que organiza o trânsito e programa os roteiros de locomoção, e esse setor tem total conhecimento da localização de cada veículo.
Perguntei para meu avô por que as pessoas eram proprietárias de um veículo e como faziam para guardá-los, mas ele não soube me responder. E ele ficou imaginando uma multidão com seus veículos sem que os governos locais tivessem conhecimento para onde cada um estava indo, pois soube que os automóveis não eram facilmente rastreados e os proprietários não precisavam informar sobre suas localizações. A identificação de cada um e de seus veículos era feita por meio de documentos em papel atualizados periodicamente, me explicou ainda com base no que foi narrado a ele pelos avós.
- E por que se chamavam automóveis? Eles já eram como os de hoje? , perguntei para meu avô. Aí ele me contou que teve a mesma curiosidade e fez uma pesquisa sobre isso. Soube que receberam esse nome porque rodavam no chão, sem a necessidade de passarem sobre umas barras de metal que veículos mais antigos usavam para se deslocarem nas vias e, principalmente, porque tinham o próprio combustível. Mesmo sendo mais avançados que os outros daqueles tempos, precisavam ser dirigidos por alguém que acionava todos os comandos e tomava conta deles até chegar ao destino e desligar o veículo. E até os automóveis com alguns comandos já automatizados precisavam de uma pessoa para dirigi-los, explicou meu avô.

10 janeiro 2016

Quero ir pra escola!

Tive vontade de saber como seria frequentar uma escola do tempo da minha avó. Ela me contou que ainda pequena saía de casa e era deixada em uma escola com crianças da mesma faixa etária. Os mais velhos ficavam em outra instituição. Mas a geração dela foi a última a ir para uma escola. A partir da sua irmã, que nasceu dois anos depois, os recém-nascidos passaram a receber toda informação e aprendizado escolar em arquivos compactados inseridos no sistema nervoso por meio de chips. Os responsáveis pela criança ficavam encarregados de ir liberando as informações de acordo com a programação do sistema de ensino.
Desde que minha avó me contou que saía de casa para ir a uma escola fiquei imaginando como seria isso. Ela disse que as crianças eram distribuídas em várias salas e que havia pessoas adultas que transmitiam todas as informações escolares. Eram professoras e professores que sabiam mais que as crianças e ensinavam vários assuntos, da matemática às línguas faladas na época. Eram muitas crianças em cada sala, que nos intervalos do ensino saíam para brincar em um pátio interno. Depois voltavam para a sala para continuar o aprendizado.
Ela passava na escola mais da metade do dia. Ia de manhã cedinho e retornava no final da tarde, cheia de histórias para contar. Conhecia muitos meninos e muitas meninas e com eles às vezes fazia passeios fora da cidade. Alguns desses colegas minha avó conservou como amigos pelo resto de sua vida e, com certeza, eles também contam suas experiências para seus netos.
Se eu fosse para uma escola ia querer conversar com o adulto que ensina as crianças. Ele ou ela deve ter bastante conhecimento para transmitir. Minha avó disse que o melhor de tudo era brincar com os colegas. Ela só conversava com o professor se fosse necessário. Ela lembra que eles eram rigorosos com a disciplina e não gostavam muito de conversar com as crianças se não fosse sobre o assunto tratado no ensino.
Naquele momento minha mãe me alertou que estava na hora de eu me concentrar na nova carga de informações que seriam liberadas. Era minha escola e eu tinha que esquecer um pouco o sonho de frequentar uma instituição como as de minha avó.

02 janeiro 2014

Papel na rua

Meu amigo foi repreendido pelo zelador do nosso setor por ter deixado cair um pedaço de papel na rua. Ele declarou que não viu quando o papel caiu da sacola que ele carregava e só não foi detido porque sua declaração foi confirmada pelos investigadores e considerada verdadeira. Estava ali a conversar com ele e me lembrei do que minha avó me contava sobre o que ocorria com episódios semelhantes que aconteciam na sua época. As cidades eram muito sujas, segundo ela informou, porque em geral as pessoas não se importavam em largar em qualquer lugar os restos daquilo de utilizavam. Pedaços de papel e outras coisas existiam em abundância pelas ruas e calçadas. Minha avó relatava que até móveis e outros objetos de tamanho grande eram largados pelas pessoas em áreas públicas. Algumas cidades adotavam leis para punir os cidadãos que largassem sujeira pelas vias públicas, mas muitos preferiam pagar as taxas de punição a ter de assumir como hábito usar recipientes que eram chamados de lixeira para depositar os restos do seu consumo. E os sujões só eram identificados se fossem vistos jogando seus restos pelo caminho. Se não fossem vistos nunca seriam punidos. Comentei isso com meu amigo e ele ficou surpreso. Ele não tinha avós nem os pais dos seus avós, porque morreram antes de poderem ser beneficiados com as técnicas de prolongamento da vida.
- É sério mesmo. Minha avó me conta muito coisa do tempo em que era menina, ou até de antes, porque a mãe dela também se lembrava de coisas semelhantes.
Expliquei para meu amigo que naquele tempo não havia identificação do DNA espontaneamente. Só era feito o reconhecimento do DNA se isso fosse requerido pela Justiça, ou se a própria pessoa pedisse e pagasse um teste para conhecer sua identidade genética. Na verdade, segundo me informou o meu avô, o DNA era usado como material de prova da paternidade de alguém, em inquéritos da polícia, para identificar se um acusado era autor ou não era autor de um determinado crime. Quando ele me contou isso fiquei muito confuso, porque me pareceu que o DNA estava então sendo usado para fins negativos, como se fosse uma parte de nós atrelada a um crime. Abri um arquivo no meu computador e mostrei para meu amigo o período em que o DNA fora adotado para esses fins: nos anos de 1950 até por volta de 2020.
Só depois desse período a identificação do DNA passou a ser um direito de todo cidadão e uma lei determinou que o teste fosse incorporado ao conjunto de procedimentos adotados com o recém-nascido. Com isso também foi abolido um papel identificado como certidão de nascimento, que continha informações como nome, hora e data do nascimento, nomes de pai, mãe, avôs e avós.
Com o registro obrigatório de todo cidadão, também se ampliou a possibilidade de coibir a criminalidade que sempre houve em todas as cidades. Se antes era preciso colher material para identificar um criminoso na hora em que era detido, agora todos eles já traziam como identidade seu código genético, que constava em bancos de dados. Pelo que pesquisei depois que meu avô me informou, passaram-se algumas décadas até que a tecnologia avançasse ao ponto de ser possível saber quem jogou um pedaço de papel na rua, ou quem tocou na escada que levava ao local de um crime, ou quem acariciou o cachorro do vizinho.
Não foi necessária muita pesquisa para levar a essa realidade, pois havia ferramenta suficiente para adotar essa forma de identificação. Um dia os cientistas perceberam que podia ser usado um scanner com um leitor digital, com acesso ao banco de dados das identificações genéticas, e seria possível reconhecer o DNA em qualquer lugar. Minha avó dizia que no tempo dela o que havia de mais avançado e parecido com isso era o leitor de código de barras, que facilitava a identificação de objetos e documentos.
Por isso tudo é que meu amigo foi identificado e logo em seguida liberado, porque além do leitor de DNA os investigadores contam com um equipamento que identifica as alterações emitidas pelo cérebro do indivíduo e ficam sabendo se a pessoa mente ou diz a verdade. Meu amigo afirmou que não havia visto o papel cair da sacola que carregava e sua declaração foi confirmada. Foi repreendido, mas não ficou detido.
Meus avós ainda se surpreendem com a limpeza das ruas das nossas cidades e, mais ainda, com as técnicas usadas para a manutenção desta e de outras limpezas.

31 dezembro 2013

Ano Novo

Havia fogos coloridos para todo lado. Algumas pessoas se machucavam, mas todos se divertiam. Com essa prática, as pessoas da maioria dos países festejavam a passagem de um ano para outro. Meu avô me contou que esses fogos já eram usados, em relação à época de seus pais, há mais de dois mil anos, em festas na China.
Foram sendo modificados em outros países, com a descoberta de novas combinações químicas para aumentar o efeito de luzes e som. Até que foram proibidos por conterem agentes poluidores do meio ambiente, além de causarem uma série de acidentes. Os fogos de artifícios do tempo dos pais dos meus avós, segundo me contaram, aumentavam a emissão de gás carbônico na atmosfera, liberavam substâncias tóxicas, provocavam incêndios, alteravam a rotina de muitos animais por causa da intensidade do som.
Meus avós se lembram ainda de festas com fogos de artifício do tempo em que eram crianças. Eles eram usados em festas folclóricas, nas passagens de ano, em festas de família e muitas outras ocasiões. Perguntei se continuaram e como faziam os festejos depois que os fogos foram proibidos. Eles disseram que havia projeções holográficas de cores e luzes, com som, que eram melhores de noite e principalmente em noites nubladas. No início, o som que acompanhava as luzes imitava o barulho dos fogos de artifício, até ser substituído por músicas.
Hoje, na passagem de ano, depois que cheguei da escola, meus avós me contaram que naquele tempo essas datas eram feriados. Não se trabalhava, nem se estudava, nada. Aliás, feriado é outra coisa que foi abolida com o passar dos anos e séculos. Hoje todo dia é dia de se fazer tudo. A gente descansa durante o dia, trabalha e estuda, mas não existe um dia para não fazer nada. Festejamos as datas importantes sem deixar de fazer o que fazemos todos os dias. O calendário foi preservado na forma que existia no tempo dos avós dos meus avós, mas o último dia do ano e o primeiro do outro não têm distinção. São dias como são todos os outros dias, porque temos muito que fazer para manter a vida.

29 dezembro 2013

Um menino comum

Sou um menino comum. Como todos são comuns no meu tempo. Falo isto porque sempre fico me comparando aos meninos que existiam no tempo da minha avó, ou até antes dela. Por isso que digo: sou um menino comum. Não há distinção entre mim e os outros meninos, nem entre mim e as outras pessoas todas que conheço aqui e em outras cidades do mundo. Mas não me canso de ficar surpreso com as histórias que minha avó ainda me conta. Então resolvi começar a registrar essas histórias neste espaço. Para que outras pessoas tenham a oportunidade de conhecê-las e também ficarem surpresas e entenderem por que temos que preservar nosso Planeta e nossas relações humanas do jeito que estão hoje.

15 dezembro 2013

Apresentação

Este é um exercício literário sobre um personagem que surgiu a partir de meu sentimento de indignação por uma série de episódios que vêm ocorrendo no dia a dia. Mino, que poderia ser Maria, Zezé ou João, é uma suposição do que pode vir a acontecer em um futuro não muito distante em consequência de todos os problemas criados pelas criaturas atuais.
O menino chamado Mino é descendente de sobreviventes da vida no Planeta, que teve não só o meio ambiente danificado, como também todas as relações entre os seres humanos (política, religiosa, econômica, sociais). Ele manifesta sua estupefação ao tomar conhecimento de fatos que hoje nos rodeiam, por meio de histórias contadas por uma avó com bastante idade (ultrapassou a expectativa de vida da nossa época). Mino passa a comparar o que ela conta com o que acontece no seu tempo. Constata que em alguns casos é bem melhor viver o seu cotidiano e fica admirado ao ver que a avó conseguiu sobreviver a tanta destruição.
As crônicas de um provável futuro representam um desabafo sobre ocorrências do presente, que envolvem a violência em suas mais diversas formas, a impunidade multiplicada, os desmandos dos homens públicos, as agressões ao meio ambiente e ao próprio ser humano. Esta é uma tentativa de reconstruir a realidade por meio da narrativa de uma criatura ficcional, que ao registrar as histórias contadas pela avó faz com que os fatos reais ganhem características de ficção.